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quinta-feira, 24 de maio de 2007

Espelho meu ou homenagem a uma anorexia tardia


Querido diário:
Fiz hoje anos!...Nem sei se ria, se chore, se celebre....o certo é que, mais logo, espera-me ansioso um opíparo jantar no Clube...
Enjôo, à cabeça, as forçadas entradas de espargos verdes com ovo mexido, exasperando já o reservadíssimo fondant au chocolat, sobre a mesa imunda da refeição farta...
Hoje nem água! _ decido consciente da fome antecipada...
Peso ainda 42 kgs! Nem o meu metro e 65 cm me safa das agruras reflectidas nos exíguos espelhos lá de casa...
São 13h40 e, só hoje, já fumei 13 cigarros e sorvi 3 garrafas sôfregas de litro e meio de água morna...
Sim, que isto de estar na China exige que pareçamos chineses o mais possível e, eu cá , há muito me deixei vencer pela ancestral sabedoria milenar sínica...
Dou-lhes, claro, o merecidíssimo benefício da dúvida, se bem que aquela curva ali não me deixa mentir...
Bolas! Continuo obesa!
Já não bastavam os piropos dos amigos, agora são as próprias pedras da calçada que choram, torturando-me ao despique, a cada vez que as piso com o meu peso pesado...
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Até quando, espelho meu?.
Até quando haverá, neste mundo, sempre alguém tão mais esbelta do que eu?...


macau, aos 3 de janeiro de 2007
(32 primaveras sem flor)

quinta-feira, 19 de abril de 2007

I do rest my case...and surrender to my weaknesses!


Assim dizia o Viegas quando lia a "Tabacaria" do Álvaro de Campos:
"_(...) come chicolates, piquena, come chicolates! Olha que não há mais metafísica no mundo senão chicolates.Olha que as religiões todas não ensinam mais que a confeitaria.Come, piquena suja, come!(...)"*

E agora, há poucochinho, depois de mais uma crise de bulimia (a quinta de hoje...), resolvi escutar os conselhos sábios da amiga Cat:
_"Aceita os teus limites físicos, querida amiga, aceita que o teu corpo não saiba, nem queira ainda alimentar-se como dantes..."
Também ouvi a doce Rose que, há minutos, me dizia, em tom maternal e em jeito de dica do mês:
-"Vai lá comer amêndoas, miúda!"
E deixei esboçar o primeiro e trémulo sorriso do dia...sim, porque isto de tornar-me anorética, primeiro, e depois bulímica é um osso bem duro de roer e que, ademais, me engasga a alegria...

É aquilo que dizia há dias, em conversa com o pappi, ao telefone:
_"Perde-se e ganha-se todos os dias!" E eu, às aranhas uma vez mais, dei o flanco e deixei que entrasse "o frango" dos ansiolíticos!...
Creio já ter entendido, de uma vez por todas, os "gritos" do corpo quando tem fome, mas estou ainda longe de o ouvir quando como demais e/ou sofregamente....
Vou deixar sair essa voz interior que me persegue, lenta e sussurrada, e me fala assim ao ouvido:
_"Carpe diem, miúda...um dia de cada vez, que a vida é curta, é certo... mas a tua ainda agora começou!"


E permito-me terminar este post, parafraseando o início do poema do heterónimo de Pessoa:
"Não sou nada. Nunca serei nada. Não posso querer ser nada. À parte isso, tenho em mim todos os sonhos do mundo."*
(momento de dolorosa inspiração, em casa de um amigo que me ofereceu o ombro, 11.04.07, 17h44)


domingo, 15 de abril de 2007

Eu, mulher, 32 anos, solteira, jurista...


Tornei-me anorética e bulímica depois dos 30...foram estes os "louros" com que a vida me premiou por não ter sabido geri-la, por não ter sabido encará-la de frente, por me limitar a ver e a viver a vida dos outros...

Primeiro veio a depressão que me levou quase tudo, depois veio o resto... e por pouco me não roubou a força de viver!

Inauguro hoje este espaço pondo-me a nú, sem orgulhos nem preconceitos, esperando, desta forma poder ajudar-me a mim e a outras mulheres que, mal ou bem, sempre conseguem sobreviver...

Que este blog possa ser um brinde ao eterno feminino!