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segunda-feira, 18 de fevereiro de 2013

acorda-me se não te ouvir chegar...

“Sou mais de abraços que cumprimentos. Adoro um beijo quando já não conto recebê-lo. Procuro uma mão no cansaço do sono para sentir que não estou só. Acordo quase sempre sem vontade de voltar a adormecer. O amor tem para mim algo de relógio como de abrigo. Sorrio quando o sinto junto a mim, e procuro distrair-me quando não o tenho por perto. A separação sempre me desagradou no amor. Sou mais do género de vivê-lo à flor da pele, de ficar com ele. Sou um romântico de berço. Cresci para me enroscar nos braços de alguém. Não tenho dúvidas de que vou morrer com um sorriso de amor estampado no rosto.”

                          José Micard Teixeira

sábado, 19 de fevereiro de 2011

Fui sabendo de Mim... como o Mia Couto!


Fui sabendo de mim
por aquilo que perdia

pedaços que saíram de mim 
com o mistério de serem poucos 
e valerem só quando os perdia

fui ficando 
por umbrais 
aquém do passo 
que nunca ousei

eu vi 
a árvore morta 
e soube que mentia

Mia Couto, in "Raiz de Orvalho e Outros Poemas"



quarta-feira, 26 de março de 2008

desta saudade estranha assim sentida


"Eu próprio percebo pouco do que tenho para dizer. Mas tenho de dizê-lo. O que quero é fazer o elogio do amor puro. Parece-me que já ninguém se apaixona de verdade. Já ninguém quer viver um amor impossível. Já ninguém aceita amar sem uma razão. Hoje as pessoas apaixonam-se por uma questão de prática. Porque dá jeito. Porque são colegas e estão ali mesmo ao lado. Porque se dão bem e não se chateiam muito. Porque faz sentido. Porque é mais barato, por causa da casa. Por causa da cama. Por causa das cuecas e das calças e das contas da lavandaria.
(...) Nunca vi namorados tão embrutecidos, tão cobardes e tão comodistas como os de hoje. Incapazes de um gesto largo, de correr um risco, de um rasgo de ousadia, são uma raça de telefoneiros e capangas de cantina, malta do "tá bem, tudo bem", tomadores de bicas, alcançadores de compromissos, bananóides, borra-botas, matadores do romance, romanticidas.
Já ninguém se apaixona? Já ninguém aceita a paixão pura, a saudade sem fim, a tristeza, o desequilíbrio, o medo, o custo, o amor, a doença que é como um cancro a comer-nos o coração e que nos canta no peito ao mesmo tempo? O amor é uma coisa, a vida é outra. O amor não é para ser uma ajudinha. Não é para ser o alívio, o repouso, o intervalo, a pancadinha nas costas, a pausa que refresca, o pronto-socorro da tortuosa estrada da vida, o nosso "dá lá um jeitinho sentimental".
Odeio esta mania contemporânea por sopas e descanso. Odeio os novos casalinhos. Para onde quer que se olhe, já não se vê romance, gritaria, maluquice, facada, abraços, flores. O amor fechou a loja. Foi trespassada ao pessoal da pantufa e da serenidade. Amor é amor. É essa beleza. É esse perigo. O nosso amor não é para nos compreender, não é para nos ajudar, não é para nos fazer felizes. Tanto pode como não pode. Tanto faz. É uma questão de azar. O nosso amor não é para nos amar, para nos levar de repente ao céu, a tempo ainda de apanhar um bocadinho de inferno aberto. O amor é uma coisa, a vida é outra. A vida às vezes mata o amor. A "vidinha" é uma convivência assassina. O amor puro não é um meio, não é um fim, não é um princípio, não é um destino. O amor puro é uma condição. Tem tanto a ver com a vida de cada um como o clima. O amor não se percebe. Não é para perceber. O amor é um estado de quem se sente. O amor é a nossa alma. É a nossa alma a desatar. A desatar a correr atrás do que não sabe, não apanha, não larga, não compreende. O amor é uma verdade. É por isso que a ilusão é necessária. A ilusão é bonita, não faz mal. Que se invente e minta e sonhe o que quiser. O amor é uma coisa, a vida é outra. A realidade pode matar, o amor é mais bonito que a vida. A vida que se lixe. Num momento, num olhar, o coração apanha-se para sempre. Ama-se alguém. Por muito longe, por muito difícil, por muito desesperadamente. O coração guarda o que se nos escapa das mãos. E durante o dia e durante a vida, quando não esta lá quem se ama, não é ela que nos acompanha - é o nosso amor, o amor que se lhe tem. Não é para perceber. É sinal de amor puro não se perceber, amar e não se ter, querer e não guardar a esperança, doer sem ficar magoado, viver sozinho, triste, mas mais acompanhado de quem vive feliz. Não se pode ceder. Não se pode resistir. A vida é uma coisa, o amor é outra. A vida dura a vida inteira, o amor não. Só um mundo de amor pode durar a vida inteira. E valê-la também."


Miguel Esteves Cardoso, Elogio ao Amor in Expresso

sexta-feira, 14 de março de 2008

sou.não sou.


sou. não sei ser metade.
vivo. a zero ou a mil num vendaval.
estanco. finco o pé na vontade ou na ausência total de.
sei. vale sempre a pena ou não vale nunca.
quero. o mundo inteiro ou o meu quarto de criança.
consigo. tudo ou nada de nada.
dou. mim de mim, tudo de tudo, sempre para sempre.
não sou. inteira sou a dobrar.